CGTP alerta para "terrorismo psicológico" na indústria da cortiça e outros sectores.

 O secretário-geral da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP) defendeu esta quarta-feira que há crescente "terrorismo psicológico" na indústria da cortiça e em outros setores, a propósito do caso de um sindicalista alegadamente perseguido pela empresa onde trabalha.

"Há uma situação de assédio permanente em muitas empresas, particularmente também no setor da cortiça, o que se manifesta de diversas maneiras: intimidação, repressão, condicionamento do exercício dos direitos quer individuais, quer coletivos, quer sindicais", declarou Arménio Carlos em Santa Maria da Feira.

"Para além do impacto pessoal, isso também provoca [nos visados] um efeito muito mais complexo que é o psicológico. Marca as pessoas, e é um terrorismo psicológico que não podemos permitir", realçou.

O exemplo concreto que o líder da CGTP acompanhou hoje foi o de um delegado sindical da empresa Socori - Sociedade de Cortiças de Rio Meão, que, segundo confirmou o Sindicato dos Operários Corticeiros do Norte, "está a ser vítima de perseguição, assédio moral e discriminação pelo facto de faltar ao trabalho para o exercício da sua atividade sindical".

Arménio Carlos nota, contudo, que qualquer dirigente das estruturas de defesa de trabalhadores tem direito a "quatro dias por mês para desenvolver atividade sindical, como a lei prevê".

"A empresa neste momento tem um dirigente sindical ao qual não dá trabalho, supostamente porque ele assume as suas funções enquanto tal", explica. "Isto é um ataque a um direito que é dele e à sua liberdade, mas é mais do que isso: também é assédio porque a empresa não pode colocar este trabalhador numa situação de inoperacionalidade no dia-a-dia, quando ele está no local de trabalho", argumenta o líder da CGTP.

O caso da Socori (que desde 2017 é propriedade do grupo francês Bourrassé, detido em 60% pelo Grupo Amorim) envolve o delegado sindical Nelson Soares, que alega que os problemas começaram após recentes reformulações na administração.

"A empresa diz que não há posto de trabalho para mim, nem ali nem em lado nenhum, quando somos mais de 400 trabalhadores, há mais de 100 precários a trabalhar lá dentro e ainda segunda-feira entraram mais 20", explica o funcionário com 22 anos de casa. "Como é que não têm trabalho para mim e estão a contratar gente para trabalhar?", questiona.

Nelson Soares acredita que o objetivo das pressões a que se diz sujeito é fazer dele "exemplo para os outros trabalhadores", no que a expectativa da empresa será que os efetivos com mais antiguidade no quadro queiram rescindir os seus contratos e os postos laborais assim libertados possam ser ocupados por pessoal com vínculo precário.

"Querem arrumar os que têm mais anos de casa porque é mais fácil manobrar um contratado - ele não pode dizer 'não' a um horário, nem ao trabalho a um sábado ou a um domingo. Se um contratado disser 'não', no dia seguinte não pega ao serviço, vem outro e pronto", justifica.

Contactada pela Lusa, a administração da Socori respondeu por email: "A empresa sempre manteve o melhor relacionamento com os representantes sindicais, com espírito de diálogo e plena abertura para discutir todas as questões por eles consideradas relevantes. Desconhecemos o motivo pelo qual representantes da CGTP estiveram à porta da nossa fábrica, até porque ninguém solicitou qualquer tipo de contacto ou reunião com os responsáveis da empresa".

O secretário-geral da CGTP adiantou que irá "solicitar a intervenção da Autoridade para as Condições do Trabalho [ACT] para repor a legalidade".

 Fonte JN