Com a proibição dos partidos e dos sindicatos livres pela Ditadura, o PS auto-dissolveu-se em 1933, e os outros partidos desapareceram de cena, à excepção do PCP que se reorganizou e manteve actuante na clandestinidade.

Os sindicatos e as centrais do tempo da República, depois de um período em que tentaram reorganizar-se na clandestinidade, sem êxito, ficaram também reduzidos a pequenos grupos de activistas, combativos e esforçados, mas sem expressão de massas. Parte destes activistas, anarquistas, mas também comunistas, resistiram durante anos à orientação do PCP que considerava não ser eficaz a constituição de sindicatos clandestinos dada a natural heterogeneidade ideológica e política dos trabalhadores, e apontava para a luta dentro dos sindicatos corporativos, obrigatórios, onde estavam os trabalhadores. Diziam que "estar num sindicato fascista era ser fascista".

Finalmente, no período da reorganização do PCP, no início dos anos 40 do século passado foi posta em prática a orientação do VII congresso da internacional comunista, de 1935, que no âmbito da constituição de amplas frentes únicas anti-fascistas, no meio operário, os comunistas deveriam estar onde estavam as massas. Constituir uma "frente única" da classe operária. O que significava, no caso português, conquistar a direcção ou lugares na direcção nos sindicatos fascistas, e defenderem a partir deles os interesses dos trabalhadores.

Todavia, o controlo da maioria dos sindicatos por gente afecta ao regime, e as limitações à actividade impostas pela repressão e vigilância nos sindicatos onde havia elementos ou direcções da confiança dos trabalhadores, tornou necessária a constituição de organismos autónomos nas empresas e locais de trabalho, eleitos pelos trabalhadores.

Por isso, na frente laboral, a par das células de empresa clandestinas do próprio partido, o PCP tomou medidas para a criação de "comissões de unidade" nas fábricas, e "comissões de praça de jorna" nos campos do Ribatejo e Alentejo, equivalentes às comissões de unidade. Para estas comissões, antecessoras das actuais "comissões de trabalhadores" e também embriões do sindicalismo unitário ao nível das empresas, eram escolhidos trabalhadores honrados de entre os mais prestigiados e profissionalmente competentes, independentemente das suas convicções políticas e religiosas, desde que disponíveis para estarem à frente da luta dos trabalhadores na defesa dos seus interesses individuais e colectivos e pela melhoria das condições de trabalho.

As "comissões de unidade" tinham então tarefas reivindicativas. Pugnavam por aumentos salariais e outras melhorias no trabalho, pediam reuniões com as administrações, promoviam concentrações dos trabalhadores junto às secções de pessoal ou na sede das empresas, e organizavam greves, apesar da sua proibição pela lei fascista, sujeitando-se por isso os seus elementos a serem presos e despedidos.

Foram estas comissões, impulsionadas pela organização clandestina do PCP que no plano unitário tiveram um papel determinante na dinamização e organização de grandes movimentos grevistas nas duras condições do fascismo, tendo as primeiras de grande impacto sido realizadas em plena II Grande Guerra Mundial, nos anos de 1941/42/43/44 na cintura industrial de Lisboa, e na Serra da Estrela pelo operariado têxtil. A repressão fascista era enorme. A polícia política irrompia fábricas adentro e prendia os activistas, a GNR carregava sobre os grevistas, e o patronato era incentivado pelo próprio governo a despedi-los. Nas greves de 8 e 9 de Maio de 1944, organizadas e conduzidas pelo PCP sob o apelo «pelo pão e pelos géneros». Nas praças de touros de Vila Franca de Xira e do Campo Pequeno em Lisboa estiveram presos mais de 5 mil de grevistas e manifestantes. Muitos deles foram posteriormente entregues à polícia política. O livro de Álvaro Cunhal "Até Amanhã Camaradas" dá-nos um retrato impressionante destas lutas, da dificuldade em realizá-las, e da sua heroicidade.

Álvaro Cunhal político revolucionário, intelectual de grande envergadura e artista, cujo centenário do nascimento se comemora este ano, já membro do secretariado do PCP nesta época teve um papel destacado na definição e na concretização prática destas complexas formas organizativas do proletariado, na sua unidade acção e luta.

As "comissões de unidade" mantiveram-se até ao 25 de Abril, com altos e baixos, no seu número e na intensidade de actividade. Tiveram novo ascenso a partir da segunda metade dos anos sessenta. A partir de 1966/67, os sindicatos conquistados por listas unitárias compostas por militantes do PCP, das organizações sociais da Igreja Católica LOC e JOC, e elementos sem partido, com as suas grandes assembleias-gerais em torno da negociação dos contractos colectivos, aumentaram o seu protagonismo na mobilização e organização dos trabalhadores e compartilharam com as "comissões de unidade" a direcção e organização das lutas reivindicativas e a sua convergência com a luta política antifascista mais geral.

Há duas teses sobre as alterações à lei sindical e à lei da contratação colectiva no inicio da chamada "primavera marcelista" que passou a homologação prévia das listas concorrentes às eleições sindicais para, verificação das condições de elegibilidade dos candidatos, o que era praticamente a mesma coisa, e a introdução da arbitragem obrigatória na lei da contratação colectiva, após determinado período sem resultados negociais entre as partes, o que naquele contexto dinamizou a negociação colectiva, tal como hoje, competência legal dos sindicatos. E a ligeiríssima alteração na lei sindical, permitiu aos anti-fascistas ganhar mais algumas direcções.

Uma das teses é que Marcelo Caetano terá querido dar-se "ares de democrata" perante a OCDE, a que Portugal aderiu, e perante a CEE, de que já se começava a falar para eventual adesão do nosso país.

A outra, e seguramente a mais forte, é que face ao crescendo reivindicativo e grevista dinamizado sobretudo pelas "comissões de unidade" o governo marcelista quis retirar a acção negocial das empresas, e puxá-la para os sindicatos, que na sua maioria eram controlados por direcções que lhe eram afectas.

Se assim foi o "tiro saiu-lhes pela culatra." Apesar da revogação das disposições "mais liberais"e da introdução de outras ainda mais repressivas do que as salazaristas, em 1971, as cerca de 30 direcções antifascistas que haviam constituído a Intersindical em 1970, em articulação e convergência com as "comissões de unidade", debaixo de forte repressão, com a prisão de vários dirigentes sindicais e o encerramento de sindicatos, reforçaram a organização e continuaram a lutar. No último trimestre de 1973, e no primeiro de 1974, levaram a cabo um forte movimento grevista por aumentos salariais e pela negociação dos contratos colectivos. Em vésperas, e no próprio dia 25 de Abril, algumas grandes empresas das cinturas industriais de Lisboa, Porto e Setúbal estavam em greve.

No processo revolucionário que seguiu ao 25 de Abril, os sindicatos assumiram na sua quase totalidade as reivindicações de natureza económica, e as Comissões de Unidade assumiram a designação de CT- Comissões de Trabalhadores ou CUT- Comissões Unitárias de Trabalhadores. A sua eleição como organismos representativos ao nível de empresa proliferou em grande velocidade, ao ritmo de revolução, e quanto às competências e à acção, assumiram regra geral o controlo operário, nos casos de abandono das empresas a sua própria gestão, e o controlo de produção, agindo quase sempre em convergência com os sindicatos na mobilização dos trabalhadores em torno das suas reivindicações.