A vida e obra de Álvaro Cunhal merece dos trabalhadores portugueses a homenagem ao seu legado assinalando o centenário do seu nascimento. É isso que pretendemos fazer com mais este texto.

Álvaro Cunhal, não tendo nascido no seio da classe operária, durante a sua vida, adoptou e lutou pelas causas do movimento operário e dos trabalhadores.

A sua intervenção e os seus contributos, foram determinantes na definição da linha política do PCP para a organização e luta dos trabalhadores nas empresas e locais de trabalho e na frente sindical, condição indispensável, não só, para a melhoria das suas condições de vida e de trabalho, mas também, para a sua emancipação e a construção de uma sociedade sem exploradores nem explorados.

Neste contexto, é justo e oportuno salientar a inestimável contribuição, teórica e prática, que Álvaro Cunhal deu, no plano ideológico, para a formação social e política dos trabalhadores e consequente elevação da sua consciência social e de classe, armas indispensáveis para convictamente combater com êxito a exploração capitalista.

Basta consultar e estudar atentamente as inúmeras intervenções, entrevistas, artigos, palestras, relatórios, etc, da sua autoria.

Para atestar o que é dito, atentemos, por exemplo, na actualidade do conteúdo do capitulo 4, do relatório "Rumo à Vitória – As tarefas do Partido na Revolução Democrática e Nacional" - , elaborado por Álvaro Cunhal e que serviu de base à aprovação do Programa do Partido, no seu 6º Congresso,, realizado em 1965. Deste capitulo, dedicado à luta "pela elevação do nível de vida e da cultura das classes laboriosas", respigamos as seguintes e significativas passagens, extraídas das páginas 58, 60 e 63:

"Como Marx ensinou, a acumulação capitalista dá-se em dois pólos: num pólo a acumulação da riqueza, no outro a acumulação da miséria. É a acumulação da miséria que torna possível a acumulação da riqueza. Cada escudo (hoje euro) acumulado nas fortunas dos capitalistas é um escudo tirado ao estômago e ao bem-estar das famílias dos trabalhadores"
" Os marxistas sabem que a jornada de trabalho se divide em duas partes: uma em que o operário produz o valor correspondente ao seu salário (chamado tempo de trabalho necessário), outra em que produz para o capitalista (chamado tempo de trabalho suplementar ou mais valia). A relação entre a mais-valia e o salário é a chamada «taxa de mais valia», que traduz o grau de exploração existente".

" Isto é: consoante os ramos da indústria, por cada hora que o operário trabalha para reproduzir a sua força de trabalho, trabalha gratuitamente de 1 a 7 horas para o capitalista" (...) Em média, ao fim das primeiras 2 horas e 21 minutos de trabalho, o operário português pode dizer: « Produzi já para o meu salário. Desde este momento até ao fim do dia, estou a trabalhar de graça para o patrão".

"O grande capital não se satisfaz porém com o grau de exploração existente. Ele procura sempre maiores lucros, aumentando cada vez mais, na jornada de trabalho, o «tempo suplementar» e diminuindo « o tempo necessário». Para isso, apoiando-se na força do Estado fascista, diminui os salários reais, aumenta a intensidade e a produtividade do trabalho, prolonga a jornada de trabalho, apura os métodos mais variados para agravar a exploração dos trabalhadores".

" O aumento da intensidade do trabalho e o prolongamento da jornada de trabalho são as formas preferidas pelos capitalistas para aumentar a exploração e a mais-valia e, portanto, o lucro. Eles obrigam a ritmos mais apressados de trabalho (...) roubam no tempo de trabalho e obrigam os operários a fazer horas extraordinárias que pagam a singelo, ou com descontos, ou não pagam mesmo em muitos casos. O desrespeito pelo horário de trabalho, exigindo-se 9, 10 e 12 horas de trabalho, é frequente".

Estas considerações sobre os mecanismos de exploração, a que os trabalhadores estiveram e estão sujeitos, são indissociáveis da importância que simultaneamente Álvaro Cunhal deu às questões relacionadas com a organização como elemento determinante para o êxito da luta dos trabalhadores. Dizia ele:

" Sem organização não há vitória possível". (...) "Sem organização podem fazer-se "coisas". Mas não se podem lançar grandes lutas, dar-lhes continuidade, elevá-las a um nível superior".

" O trabalho de organização oferece inúmeras dificuldades. Exige grande tenacidade, paciência, método e imaginação. Exige que se saiba dar apreço aos pequenos êxitos, pois muitas vezes é necessário caminhar passo a passo. Exige a um tempo prudência e audácia, disciplina e iniciativa."

" Na organização da luta reivindicativa, seja numa só empresa, seja num conjunto de empresas, uma preocupação determinada pela experiência deve ter-se presente: quanto mais larga participação de trabalhadores tiver lugar na preparação e na condução da luta, quanto mais comissões forem criadas, quantos mais trabalhadores pertencerem às comissões, mais poderoso será o movimento mais estarão ao abrigo da repressão os seus dirigentes, mais condições haverá de dar continuidade à luta e conduzi-la até ao desfecho vitorioso". (...) "Quando se consegue, numa luta reivindicativa, criar uma organização em que participam dezenas e mesmo centenas de operários e operárias, tem-se uma condição fundamental para lutar até alcançar a vitória".

Nunca é de mais salientar a concepção que Álvaro Cunhal tinha da luta nas empresas em torno da ação reivindicativa e da luta de massas. A importância que lhe atribuía, não se resumia à luta imediata pela melhoria das condições de vida e de trabalho, assumia-a como a primeira grande frente de luta da classe operária contra a exploração e pelo derrubamento da ditadura fascista.

Nas lutas que hoje travamos, embora num contexto laboral e político diferente, os contributos e a obra de Álvaro Cunhal, para a organização e luta dos trabalhadores, quer durante o fascismo quer já no Portugal de Abril, são ensinamentos de grande alcance e atualidade, merecedores de muita reflexão e acção, nomeadamente nos domínios da luta nas empresa e locais de trabalho, enquanto principal campo de batalha contra a exploração e pela emancipação dos trabalhadores, e da organização sindical de classe e o seu reforço, enquanto fator decisivo do desenvolvimento e sucesso da luta de massas.

 

UNIDOS E ORGANIZADOS VENCEREMOS!